quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Boicote o Show do Ben Harper no Point do Riozinho

Praia do Campeche: paraíso na mira dos especuladores imobiliários (Imagem: Gabriel Dread)
A degradação ambiental e a especulação imobiliária caminham juntos. No bairro do Campeche, em Florianópolis, a invasão de áreas protegidas por grandes investidores ocorre sem o menor controle do Estado. A população tenta se mobilizar, mas parece que a grana fala mais alto e a vontade popular não significa absolutamente nada para os corruptos governantes catarinenses. As forças babilônicas estão tomando conta da Ilha do Desterro...

Para coroar a destruição do sul da Ilha da Magia, o Point do Riozinho, uma das muitas entradas da praia do Campeche, foi escolhido para ser a sede do Skol Praia, evento multimilionário promovido pela marca de cerveja para atingir o público jovem. Segue abaixo um texto indignado de uma moradora do bairro que retrata bem a nossa opinião sobre o assunto.

Manifesto contra o Skol Praia

Por Gabriela Breggue da Silva

Amigos,

Quero compartilhar/argumentar com todos vocês a indignação dos verdadeiros moradores do Campeche com relação ao Show do Ben Harper que a Skol está promovendo e financiando.

A nossa comunidade era um lugar habitado por poucas famílias nativas que viviam da pesca e da prática açoriana de produção artesanal de farinha e foi agraciada pela generosa beleza natural de uma praia grande e linda e uma ilha que guarda muito sobre a história dos nossos antepassados. Como qualquer outro bairro da ilha foi crescendo, terrenos foram sendo vendidos até que recebeu a praça em homenagem ao primeiro campo de aviação da cidade, onde dizem as más línguas ter recebido o escritor de O Pequeno Príncipe, Antonie de Saint-Exupéry. No qual deu-se o nome de uma avenida importante do bairro a Avenida Pequeno Príncipe, principal acesso à Praia do Campeche.

Muito o Campeche cresceu a partir daí recebeu asfalto, material de construção, supermercado, posto de gasolina, imobiliárias, grandes empreendimentos, lixo, esgoto, destruição, construções em APP (Áreas de Preservação Permanente) e claro o Cacau menezes fazendo propagando do novo point da ilha a "Praia do Riozinho”, como se o Pico do Riozinho virasse uma nova praia idependente da Praia do Campeche. E que como prevíamos deu certo, grande poder de convencimento têm um apresentador do Jornal do Almoço da RBS Tv programa visto por grande parte da população florianopolitana.

Nesta última sexta-feira dia 28/01 no Diário Catarinense o colunista Marcos Espíndola teve o desprazer de falar mal dos moradores do Campeche por promoverem uma manifestação não só contra o Show do Ben Harper (de lastimável impacto ambiental) mas contra também as especulações imobiliárias. Fonte: Diário Catarinense.

E como um bom desinformado, o colunista Marcos cometeu uma grande gafe... Vamos ao princípio: O riozinho do campeche nunca foi chamado de Rio do Rafael, este aliás já existiu, porém foi extinto por uma família muito poderosa que comprou o terreno que compunha o rio e claro o destruiu, que nascia na Lagoa da Chica. O nome verdadeiro é Rio do Nóca (Zeferino Breggue - meu bisavô) e antes de receber este nome era chamado do Rio João Francisco (João Francisco Breggue - meu tataravô), meu avô Reduzino Zeferino Breggue, o Seu Gino, conta que esse rio nasce na Lagoa Pequena e desemboca na praia. Ele lembra que este rio era usado pela comunidade para lavar roupas e os tipitins (balaios usados da farinhada e lavados no rio), diz, que chegavam carros de boi cheio destes e que já existiu até jacaré no local.

Agora vamos ao que interessa. Toda a família da minha mãe, nasceu e cresceu no Campeche, têm as raízes açorianas fincadas nesta terra, e eu fui criada em meio a uma cultura linda onde cada vez que entro na casa de meus avós peço a benção deles para dirigir-lhes a palavra. Não posso deixar que falem mal, e principalmente notícias equivocadas com erros sérios em um jornal de grande circulação da cidade.

Este bairro sofre com uma péssima infra-estrutura para receber turistas têm pouquíssimos hotéis e pousadas, não há estacionamento nem para quem visita a praia fora da temporada imagina para um Show que deslocará aproximadamente 15.000 pessoas. Onde essas pessoas estacionarão seus carros??? E o que é pior o palco e toda a estrutura para receber esse show está alocado em uma APP (Área de Preservação Permanente). Já derrubaram o Bar do Seu Chico com o argumento de que àquela construção infringia as leis ambientais. Tudo bem, lei é lei e deve ser cumprida, mas então que se aplique a todos e não simplesmente sirva para os que não tem dinheiro para comprar a vista grossa, a autorização e o silêncio de alguns. Espalharam empreendimentos por todo o bairro, cada dia encontro mais lixo na praia. ONDE NOSSO BAIRRO VAI PARAR???

Não quero ver a história deste lugar tão encantado ir pelo ralo. Precisamos perceber que esse Show é uma estratégia para trazer cada vez mais turistas para a ilha, sem poder dar-lhes a estrutura que prometem nas propagandas, banners, folders, outdoors e etc. Fila a alguns anos atrás era raro, e hoje??? Até fora de temporada nos deparamos com as estressantes filas, coisa que era “privilégio” apenas de São Paulo e outras cidades grandes. Como vai ficar nossa cidade depois de receber 15.000 pessoas para esse show??? Mais especulação imobiliária, mais condomínios, mais prédios, mais construções irregulares, mais filas, menos esgoto tratado, menos infraestrutura, menos capacidade de acolher tanta gente interessada em morar nessa ilha que não foi feita pra comportar tanta gente! Esses políticos e empresários só querem saber de rechear seus bolsos com dinheiro, não pensam no bem estar da população, não ligam para a qualidade de vida de quem paga os impostos... Quanto mais dinheiro para eles melhor. E para responder a pergunta que o querido colunista ali de cima fez, VOTAMOS CONTRA SIM! Minha família votava todo os dias contra. Mas somos muito poucos, contra tanta gente querendo conhecer o Riozinho, o Campeche e Floripa. Sabemos que todos que vêm para a ilha se apaixona pelas praias, pela terra de gente bonita e simpática. Você que se mudou para Florianópolis a pouco tempo, que esse pouco tempo seja 20 anos, continua sendo considerado imigrante, se apaixonou pela cidade no instante em que colocou os olhos na ilha, imagina com as cenas que passam na nova novela da Globo, quantas pessoas não estão sonhando em morar aqui. E o show do Ben Harper, Donavon Frankenreiter e Tom Currem vai ser a oportunidade de vir assistir ao Show gratuito e conhecer a cidade, e posteriormente se mudar de vez para cá, porém sem investimento nenhum da prefeitura/estado em infra-estrutura para a cidade.

Como dizem por aqui essa ilha logo logo vai afundar.

Proponho o Boicote do Show, nada contra os caras, muito pelo contrário, acredito que se eles soubessem onde eles irão tocar não o fariam, são pessoas inteligentes e acreditam na preservação ambiental, e tocam muito. Mas não aqui.

Ajudem repassando ao maior número de pessoas conhecidas e vamos fazer um boicote. Não vamos ao show.

Espero que todos que se preocupam com o lugar onde moram, vivem ou passam férias, conscientize-se e participe desta grande mobilização pela preservação da Praia do Campeche.

Mais sobre a Babilônia invadindo o Campeche


Moradores protestam contra mega show no Campeche - Canga Blog

Campeche se mobiliza contra mega-exploração - Sambaqui na Rede

A cidade cresce. O que será da ilha? - Ponto Cultural do Manézinho da Ilha

Movimento Campeche Qualidade de Vida

Associação dos Moradores do Campeche - AMOCAM

Jornal do Campeche

6 comentários:

Maria Elisa von Zuben Tassi 3 de fevereiro de 2011 08:28  

A babilonia está se alastrando rapidamente por tudo!!! É o vírus da "Era do fogo" que vivemos. Salvemos, no mínimo, um canto de terra e água limpa pra cultivarmos. abraços

Anônimo,  4 de fevereiro de 2011 00:48  

Sou de Floripa e (graças a Deus) saí daí há 3 anos.
Morei minha vida inteira na Lagoa quando só tinha Dunas e mais nada.
Hoje, depois de conhecer muito do mundo, tenho consiência de como eu era provinciana.
Já fui bairrista e me achava dona da ilha como vocês.
Também fico triste cada vez que volto para Floripa e vejo como tudo mudou tão rápido.
Mas o mundo inteiro mudou e progrediu. Não adianta vocês acharem que aí será diferente.

Se querem protestar, protestem contra os políticos corruptos daí e que estão vendendo a nossa ilha.
Agora esse papinho de que "eu sou nativo pq minha avó é açoriana..." ZZZZZZZZZZZZ

Protestar contra um show????
Tá parecendo mais dor de cotovelo por não teres sido convidado...

É por causa desse tipo de pensamento pequeno que a ilha está afundando mesmo.

Eu também tenho um protesto para fazer: BAIRRISMO É UMA MERDA!!!

Gabriel Dread 4 de fevereiro de 2011 15:25  

Olá anônima!

Que bom que você deixou de ser bairrista. Parabéns.

A autora do texto se diz nativa, mas eu sou de São Paulo e moro em Floripa a apenas a 6 anos... e mesmo assim concordo com ela. Sou bairrista também?

É fácil reduzir uma discussão a ofender a pessoa ao invés de desconstruir seus argumentos.

A mão invisível do mercado está dominando o mundo, mas ainda existe a resistência. Considerar o "progresso" como algo natural e inevitável é uma visão provinciana e bairrista.

Existem diversas maneiras de se promover o desenvolvimento sustentado do lugar. Florianópolis, seus moradores, as autoridades e as empresas que investem na região estão demonstrando na prática que preferem o desenvolvimento insustentado, cometendo os mesmos erros já acontecidos no resto do mundo.

Também acho fútil protestar simplesmente boicotando um show gratuito. Mas o megaevento é uma ótima oportunidade de mostrar UMA OUTRA VISÃO DE MUNDO e de projeto para o futuro do Campeche, do sul da Ilha da Magia e de Florianópolis como um todo.

Abraços
Gabriel Dread
(editor)

Júlia Petit 6 de fevereiro de 2011 15:40  

Sinceramente acho hipocrisia,já que o bairro esta sendo devastado a tempos,quando derrubaram milhares de arvores pra fazer o Essence,o Las Rozas Village,ninguém protestou.

Na verdade só estão se aproveitando da mídia que agora esta de olhos no Campeche.

O bairro ta crescendo,sim infelizmente nao do jeito que queriamos,mas vamos deixar de acreditar que tudo será como antes,um bairro pacato e tranquilo.

Júlia

Gabriel Dread 6 de fevereiro de 2011 17:30  

Julia,

Na verdade, muitos protestos aconteceram e continuam acontecendo no Campeche contra a especulação imobiliária.

Alguns dos links indicados ilustram a luta da comunidade. O Campeche é um dos bairros com maior engajamento na luta contra o desenvolvimento irracional que está afundando a ilha.

Os moradores do Campeche emcabeçaram a luta contra o plano diretor que a prefeitura de Floripa queria epurrar guela abaixo.

Na minha opinião, o show promovido pela Skol no Point do Riozinho é emblemático do movimento de capitalismo selvagem que toma conta da ilha. Não tenho dúvida que os empresários que exploram o bairro fizeram um lobby pesado para que o evento acontecesse.

Se os questionamentos ao show não tivessem sido levantados pela comunidade, a prefeitura, a FLORAM e o Ministério Público Federal não teriam imposto as restrições que impuseram à organização do show.

Abração
Gabriel Dread

Ateliê Bicho de Mato 7 de fevereiro de 2011 14:20  

Oi anônimo!
Se vc entrar no blog do MOSAL:
http://mosal-movimentosaneamentoalternat.blogspot.com/
ou em meu álbum de fotos (Raquel Macruz) no facebook, vai poder ver os registros fotográficos de umas tantas manifestações nossas com relação aos absurdos que ocorrem na cidade... Só que a gente não tem a mídia prá divulgar... Fácil falar que a gente não se manifesta... Cadê vc?
Raquel Macruz
Abraço a turma do Reggae no Mato! Adiconei vcs ao blog do MOSAL ( Movimento Saneamento Alternativo!!!)

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